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A grande narrativa das coisas e nosso lugar no mundo

22/10/2020

A MTV tinha uma forma de explicar a música que de tão simples e funcional parecia muito ser verdade. Eram ciclos de uns 10 anos mais ou menos em que um gênero musical era criado por alguns jovens ingleses ou americanos contra tudo que estava rolando na época e propulsionados pela própria inventividade e leitura da estética da época conseguiam se destacar e efetivamente criar um mundo novo com solos de guitarra e um refrãozinho bem sacado.

Nominalmente seguiram a época confusa do rock painho mainha, aí uma confusão lá pelos anos 60 os jovens tomaram um doce e ficaram mto lokos, depois um negócio lá de progressivo que ninguém nunca explicou direito mas que tava lá pro punk se revoltar contra e inflamar uma revolta curtíssima antes que o new wave destruísse tudo com o poder do capital e da composição meia boca. Tudo isso antes que os novos guitar heroes dos anos 90 viessem salvar o mundo da mesmice etc

Estamos em 2020 o rock foi destronado pelo rap e por sei lá o quê como linguagem da juventude ninguém mais ouve um álbum todo é o fim do mundo mais uma vez.

Exceto que será mesmo???

A grande narrativa das coisas é uma dessas ideias que a gente importou e assimilou e deixou que fizesse parte de quem a gente é. Ainda que estruturalmente ela não reconheça nem a nossa existência. Muito menos das bandas, movimentos, pessoas e ideias que a gente começou, viveu e achou por bem terminar.

Da fronteira do mundo civilizado surgiram bandas de abertura pra apoiar a grande narrativa das coisas. Expressões locais de uma vontade sem rosto. Mãos e pés de alguma coisa grande o suficiente pra cruzar o oceano.

Além da fronteira da civilização as coisas ficam muito confusas. Se você mora numa cidade média talvez você entenda o que eu quero dizer. A grande narrativa das coisas fica cada vez mais distorcida a medida que você se afasta do centro, mas é preciso salvar o rock.

As incoerências começam a surgir e o esforço cognitivo pra ajustar a realidade à forma que você aprendeu que as coisas são é cada vez maior. O blast beat surgiu no Brasil antes de todos os lugares do mundo, Miles Davis copiou um tema do Hermeto Pascoal, o punk surgiu um milhão de vezes antes de virar capa de revista na Inglaterra.

As discussões sobre música raramente falam de música. Grandes nomes, novos estilos, novas drogas, novas roupas. A absoluta falta de importância de todo o resto.

E aí que a gente que tá mais longe do que perto dos lugares importantes do mundo e inventa de ser artista acaba acreditando que de algum forma o ideal estético a ser alcançado é o dos artistas que vendem mais. Talvez até pra fazer parte dessa conversa que a gente mais escuta do que fala.

O desespero é uma resposta comum nessa situação também.

Nada contra o desespero, mas não sei se vale a pena brigar tanto pra subir no pódio deles. Não é?

texto, coisas